quarta-feira, 1 de abril de 2009



as noites são uma febre e tu sabes disso.
mais ou menos leve, mais ou menos violenta.
acossa os que têm medo da dor.

é na noite que determinados encontros acontecem
as feras e os seus pecados evadem-se dos olhos
pássaros de fogo atravessam, ininterruptamente, os desassossegos
e explodem em espasmos de fogo que se arremessam livremente
em todas as direcções, queimando os limites dos espelhos

ouço-te, no sussurro precário que pernoita ao largo
ouço-te pela madrugada inerte e despojada de paisagens

sei que, na proximidade vertiginosa das sombras
se desprende dos braços o abraço, e nómada escorre
discorre da parede mais próxima a certeza de que não
partirás enquanto não se apagarem as luas, transformistas;
de que não partirei enquanto não se estilhaçarem os seus reflexos
nas águas duras do rio

habitamos a primeira morada da desolação, noite dentro
tecendo outros corpos de soturnas vogais, nomeando peles animais
em construções de fogueiras mansas
engolindo a acidez da saliva vazia do latejar permanente do teu sémen
espiando os sulcos da ausência, discretos, sob as marcas dos punhais
nos pulsos inflamados como papoilas


Ana de Sousa
foto: Geoffroy Demarquet

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