domingo, 14 de setembro de 2008

Laranjeiras sob o olhar de um angolano

Laranjeiras de mim...

por *Ondjaki

...talvez as pessoas gostem de lembrar e celebrar a cidade do Rio de Janeiro com as praias e as copacabanas e as ipanemas e as mulatas e as cervejas num futebol de Maracanã enlouquecido pela multidão, passando pelos carnavais e as favelas, tudo bem, pode ser, para mim, a cidade do Rio é e vai sendo o pacato bairro das Laranjeiras, com as árvores bonitas de poemas silenciosos e o cocô dos cães nos passeios,

em Luanda, quando pisamos em cocô de cão dizemos "ativei uma mina", e o meu olhar está sempre permanentemente alerta, é raro eu ativar uma dessas incômodas minas, Laranjeiras é o lugar da minha calma e da minha quase distância de mim, aqui conheci antigos amigos que me faltava colecionar, o mundo mágico e palavroso do meu amigo Lino (dono de uma infância fabulosa com laivos concretos de realidade), aqui sei das vozes das crianças ao fim da tarde e o silêncio bonito, mudo, dos miúdos que saem alegres da escola de surdos, muitas vezes aprecio, em Laranjeiras o intervalo dos meninos na escola para surdos, quanta alegria silenciosa!, quanta beleza nos gestos que inventam dizer sorrisos,

mais adiante, a Rua Alice, a comida agradável na Adega do Serafim, alguns metros depois, é raro não estar lá o Edgar na sua tasca, ou está de pé junto ao balcão ou fica mais ao fundo, como que saboreando a tarde, talvez pensando na vastidão do tempo que já atravessou, ali perto gritam os taxistas, buzinam, passam velozes os entregadores nas suas bicicletas gordas de rápida frequência, o hospital das pessoas com problemas de coração, e também crianças - ali dentro se joga o futuro dos corpos e o destino das vidas, o coração, órgão que afinal cataliza a vida, ou a interrompe, frágil no seu tamanho e responsável - dizem - por emoções associadas à poesia, à coragem, às decisões, aos rumos,

ao fim da tarde, no início da General Glicério, um senhor de idade avançadíssima abre as janelas como quem fosse voar ou convidar pássaros para a sua tarde, deixa que a sua música clássica invada a rua e contagie os passantes, sorrio para ele, ao que me corresponde com uma mirada que é misto de loucura e vôo, se ele não faz adeus com a mão, faz com o olhar,

ali existe um ruído de árvores ao fim da tarde, que Luandino Vieira, escritor angolano, chama de "xaxualhar" (um belo termo, penso), o maximbombo (ônibus) 184 vai levar o seu condutor à Central, ele que queria ficar ali a conversar com os outros, a beber o seu café,

mais longe os bicheiros fazem o seu trabalho com maior ou menor simpatia, gatafunham rabiscos, poderosos códigos, permanecem atentos aos celulares, passa um homem gordo com um cinto frágil na cintura, todas as tardes aposta (terá ganho?, continua a ganhar?), o arrumador de carros sorri mesmo quando não lhe dão a prometida moeda, do supermercado saem as empregadas com as compras, as velhotas de roupa mal escolhida e de varizes desprotegidas, as babás escuras com os meninos claros,

dentro do supermercado sou invadido pela timidez do meu sotaque, procuro os artigos antes de fazer perguntas em voz alta, se as faço obrigam-me a falar mais alto e as pessoas olham para mim, "você é português?", eu só queria encontrar uma caixa com seis ovos em vez de 24, "sou angolano", digo, mas as caixas de seis ovos são raras, o alho francês aqui tem ouro nome, o sal grosso é demasiado grosso, as stella artois são baratas, o vinho português é caro, o sabão líquido de lavar a louça é demasiado diluído, mas ali onde a General Glicério encontra a Rua das Laranjeiras, no cantinho, está a Nossa Sorveteria e Confeitaria, com a simpatia do senhor Adriano (e as respectivas filhas),

lá o suco de melancia misturado com melão é uma maravilha, ou então uma cerveja bem gelada, porque junto das cinco, infalivelmente, a bela criatura - senhor Barone? - a quem chamam de Vovô vai chegar, na sua inclinação cronológica, vai sorrir, cumprimentar e beber religiosamente o seu copo de cerveja, enquanto ninguém mais fala, só o arvoredo, como que inventando segredos longínquos, no que o Luandino diz ser o "xaxualhar" das árvores, aqui, na cidade do Rio de Janeiro, no quieto bairro das Laranjeiras, perto de um dos terraços mais simpáticos do mundo...


*Ondjaki é escritor angolano e está passando uma temporada no Rio, onde vai ministrar um curso no POP - Pólo de Pensamento Contemporâneo.


n.r.: é, minha Laranjeiras é mesmo assim, e me impressionou o olhar dele sobre as crianças surdas, esse sempre foi o meu olhar. E a minha GG, é um caso de amor à parte...


fonte:Revista O Globo

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