quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mulheres são mais confiáveis

Por que é melhor dar empréstimos para as mulheres


Ajudar mais a mulher dá melhores resultados, e a Espanha aderiu a essa doutrina com vontade de liderar a cooperação de gênero. Três décadas depois, a intuição de Muhammad Yunus, o homem que decidiu que 95% dos beneficiários de seu banco para pobres seriam mulheres, se transformou em um princípio universal que rege as políticas de ajuda ao desenvolvimento de organismos como a ONU ou o Banco Mundial: "Elas são melhores lutadoras contra a pobreza que os homens", afirma Yunus. A descoberta lhe valeu um Prêmio Nobel da Paz (2006) e a possibilidade de dizer, 30 anos depois, que conseguiu tirar da pobreza 6 milhões de pessoas.



"São as mais pobres entre os pobres. E estão desesperadas para cuidar adequadamente de seus filhos. Os homens não estão ao lado dos filhos em tempos de crise. Elas sim. Têm mais razões para sair da pobreza, seus filhos", afirma Yunus.

Sete em cada dez pessoas que têm fome atualmente no mundo são mulheres, segundo a ONU. Elas realizam mais de dois terços do trabalho não-remunerado, isto é, o equivalente a US$ 11 bilhões, segundo o Pnud, mas só recebem 10% das receitas e possuem 1% dos meios de produção. São as mais afetadas pela pobreza e ao mesmo tempo as que têm mais possibilidades de combatê-la, porque acima de tudo são administradores do lar, as que cuidam do bem-estar dos filhos, futuras gerações de pobres e analfabetos... ou não.

Quando Yunus implementou em 1976, com apenas US$ 27, sua idéia do banco para pobres, observou que a primeira coisa que as mulheres de Bangladesh faziam quando tinham renda era recuperar seus filhos das casas dos ricos onde os haviam deixado trabalhando em troca de comida. A segunda coisa era enviá-los para o colégio.

"A igualdade entre homens e mulheres é um fator fundamental para lutar de forma eficaz e sustentável contra a pobreza", diz a Declaração de Objetivos do Milênio da ONU. A Espanha pretende defender esse novo enfoque da ajuda ao desenvolvimento. A vice-primeira-ministra María Teresa Fernández de la Vega anunciou no terceiro Encontro Hispano-Africano de Mulheres que a Espanha promoverá a criação de um fundo de gênero na ONU para financiar políticas de igualdade. Nesta legislatura, o governo espanhol aumentou em 400% a cooperação destinada a mulheres e a Espanha já é o terceiro doador de microcréditos do mundo, atrás do Banco Mundial e da Alemanha.

"Em quase todas as culturas as mulheres, especialmente as pobres, são cidadãs de segunda classe. Esse é o poder do microcrédito: põe o poder em forma de dinheiro diretamente nas mãos das mulheres", explica Sam Daley-Harris, diretor de um movimento de microfinanciamento do qual se beneficiaram 100 milhões de famílias pobres em todo o mundo.

"Quando o empréstimo entra em uma família através da mulher, os benefícios vão diretamente para o bem-estar de toda a família: as crianças vão para o colégio, comem melhor, o telhado é consertado... Quando se trata de um homem, há muitas possibilidades de que acabe em bebida", acrescentou Daley-Harris. A mesma tese é defendida por Rosahneh Zafar, discípula de Yunus e presidente da Fundação Kashf (milagre) de Bangladesh, com 260 mil beneficiárias de microcréditos: "Se uma mulher ganha um dólar, gasta 70% em sua família. Um homem lhe dedica 30%", explica a secretária de Estado de Cooperação, Leire Pajín.

Mas a fórmula enfrenta o pior desafio de sua história: a alta do preço dos alimentos. "Se em cinco anos tiramos da pobreza 50 milhões de pessoas através de microcréditos, agora 25 milhões voltarão a ser pobres porque o preço de sua matéria-prima triplicou e suas receitas, não", lamentou Zafar. Yunus também não está otimista: "É muito grave. Representa uma pressão enorme sobre os mutuários, porque suas receitas aumentam pouco a pouco, mas o preço dos alimentos sobe muito rápido. Mas o pior é que não é algo passageiro".

Há vários programas como o Fundo de Concessão de Microcréditos à mulheres, na Espanha, a Fundação Interamericana, no México e outros. Mas implantar esses programas não é fácil, conforme o país. "Esse trabalho deve partir da consciência que as próprias mulheres têm de seus direitos em cada país, para que não seja uma ingerência cultural", explica Juana Bengoa, porta-voz de gênero da Coordenadora de ONG de Desenvolvimento. De la Vega se declarou horrorizada depois de se hospedar com um homem e suas três mulheres no Níger. Mas o texto e o propósito do encontro, a Declaração de Niamey, foi assinada sem uma só palavra de condenação à poligamia.



fonte:El País

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