quarta-feira, 30 de maio de 2007

Igualdade social

Seu Jorge: "Se fosse 100% negro, lutaria por indenização"


O músico carioca Seu Jorge tem 12,9% de genes europeus e 85,1% de genes africanos, indicam exames de DNA feitos a pedido da BBC Brasil como parte do projeto Raízes Afro-brasileiras.

"Tinha muita esperança de ser 100% negro. Se fosse, eu ia pedir uma indenização muito pesada nesse país, mas sou filho dos culpados também", disse o músico em entrevista na sua casa, em São Paulo, à BBC Brasil.

O projeto Raízes Afro-brasileiras testou o DNA de outros oito negros famosos no Brasil. Milton Nascimento, Sandra de Sá, Neguinho da Beija-Flor, Frei David, Daiane dos Santos, Djavan, Ildi Silva e Obina, do Flamengo, participaram do projeto.



fonte:BBC Brasil

Metrô alemão

Alemã se confunde e "estaciona" carro em estação do metrô



Uma mulher alemã bloqueou a entrada para uma estação de metrô em Dusseldorf, depois de confundir a escadaria com um estacionamento, afirmou a polícia da cidade nesta quarta-feira.

A mulher, de 52 anos, atravessou a calçada com seu Volkswagen Beetle, entrou na estação de Nordstrasse e parou o carro no quinto degrau da escadaria. Ela conseguiu sair do carro sem se machucar, mas o carro teve de ser guinchado. A polícia estimou os danos à estação em cerca de 1,5 mil euros (aproximadamente R$ 4 mil).

Um jornal da cidade disse que a mulher ficou mais chocada e envergonhada do que ferida. Um incidente semelhante aconteceu há quatro anos na mesma estação, quando um homem de 50 anos, da cidade de Dortmund, também confundiu a estação com um estacionamento subterrâneo.

A diretora de Trânsito de Dusseldorf, Andrea Blome, disse: "Apenas recentemente mudamos a entrada desta estação". Ela disse que a escadaria foi pintada com uma cor mais clara e que foram instaladas mais luminárias.

Mas ela afirmou que a estação não passará por novas alterações e que o departamento de Trânsito não a considera perigosa.



fonte:BBC Brasil

segunda-feira, 28 de maio de 2007


Hoje não...


Amanhã pensarei em tudo!
Nos problemas, nos dilemas
Nas dificuldades e contrariedades
Nos contratempos e aborrecimentos
Nos estorvos e obstáculos.
E convicta tomarei resoluções,
E encontrarei soluções
E saídas geniais,
De becos que não têm saída.
E serei corajosa, guerreira,
Combativa,
Imbatível na coragem e na vontade.
Mas...
Hoje não…
Hoje quero deitar-me num campo de girassóis adormecidos
Embrulhada em réstias de sol e de calor.
Quero rever-me em estrelas e uma a uma colhê-las,
E ver na lua o teu rosto que me sorri e me vigia
E me diz com um piscar de olho:
- Preguiçosa! Nada fizeste todo o dia.
E eu calma, sonolenta, sorrindo no teu sorriso, ofertando-te uma estrela
Murmurando dir-te-ei:
- Amanhã serei capaz, amanhã serei audaz.
Mas hoje não...Porque vieste.
Hoje não...Que estás comigo.
Hoje não...Que és luar
Que me banha e me deleita,
Que me toca e se deita
A meu lado,
Num campo de girassóis adormecidos.
Amanhã eu farei tudo!
Mas hoje não...
Que te tenho nos braços e adormeço contigo


Encandescente
foto:Pascal Renoux


As tuas mãos


Como podem tuas mãos ser em mim fogo e água
E atearem labaredas e correrem como um rio
E matarem minha sede e serem fogo e arrepio
E serem chama e calor
E serem húmidas brasas
E serem sólidos os teus dedos
E em mim nascerem asas
E voar nas tuas mãos
Fogo, água e arrepio
Tremer ardendo de paixão
E desfazer-me em gotas de água
Entre os teus dedos
Nas tuas mãos
Minha prisão e minhas asas.



Encandescente
foto:Pascal Renoux

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Primavera em Trafalgar Square



Público aproveita o recém-implantado gramado na Trafalgar Square, no centro de Londres; os 2.000 metros quadrados de grama ficarão durante dois dias no local, como parte de campanha para valorização do verde


fonte:AFP

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Espião russo em Cannes

Documentário sobre caso Litvinenko entra na programação de Cannes


Um documentário sobre Alexander Litvinenko, ex-espião russo assassinado em Londres com uma substância radioativa, foi acrescentado ao programa da mostra oficial do 60º Festival de Cannes. O filme será exibido sábado (26) e está fora da competição oficial, de acordo com os organizadores do evento.


"My Friend Sasha: A Very Russian Murder" foi dirigido por Andrei Nekrasov, 48 anos, amigo de Litvinenko, que filmou durante dois anos o ex-agente, que morreu em 23 de novembro do ano passado em Londres aos 43 anos.

Documentarista formado no Instituto Nacional para o Teatro e Cinema de Leningrado, Andrei Nekrasov teve um curta-metragem, "Springing Lenin", selecionado para a Quinzena dos Realizadores de Cannes em 1993.

O cineasta inclui em seu documentário vários depoimentos de pessoas próximas, incluindo ex-agentes secretos russos, sobre a morte de Litvinenko.

Opositor do presidente russo Vladimir Putin, Litvinenko foi envenenado com a substância radioativa polônio 210. A família e os amigos do ex-agente acusam o Kremlin pelo crime. O Reino Unido exigiu da Rússia a extradição de Andrei Lugovoi, indiciado pelo caso.

A viúva do ex-agente, Marina Litvinenko, que escreveu um livro sobre o marido, concederá uma entrevista coletiva em Cannes no sábado, dia 26. O documentário também aborda episódios polêmicos da história recente russa, como a série de atentados cometidos contra edifícios em 1999, que deixaram quase 300 mortos.



fonte:Folha Online

terça-feira, 22 de maio de 2007

Afroreggae modelo exportação

Afroreggae traz 'oficinas' para comunidades violentas de Londres



O grupo carioca AfroReggae está em Londres para tentar repetir, entre jovens de comunidades afetadas pela violência na Grã-Bretanha, sua experiência de combater armas e drogas com arte.

No ano passado, o grupo, formado na favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, fez shows no prestigioso Barbican Hall, na capital britânica. Agora, o AfroReggae volta com contratos para mais shows, oficinas culturais e o lançamento de um disco no país pelo selo inglês Mr. Bongo.

Em entrevista à BBC, a produtora do grupo, Paula Darienzo, disse que os problemas enfrentados por jovens de comunidades carentes na Grã-Bretanha não são muito diferentes dos vividos por um jovem brasileiro. "Os problemas são parecidos. A dificuldade de comunicação, ociosidade, falta do que fazer depois da escola e até a exclusão da escola", disse. "Claro que no Brasil isso é mais extremo".

Vieram para as oficinas os professores de teatro Johayne Hildefonso e Carla Martins e os percussionistas Altair Martins e Juninho, ambos integrantes da Banda AfroReggae.

Apesar do imenso sucesso dos shows do AfroReggae no Brasil e no exterior, Darienzo explicou que a proposta do grupo não se limita às apresentações. A idéia é resgatar jovens de uma vida de drogas e de violência através de atividades culturais como teatro, grafite, música e vídeo.

Em Londres, o plano é usar as oficinas para capacitar profissionais que trabalham com jovens na Grã-Bretanha. E segundo Darienzo, as diferenças culturais não são um problema. "Estamos trabalhando com negros, turcos, indianos e ingleses", disse. "No bairro de Hackney, por exemplo, existe uma grande comunidade turca. Então em vez de usar o maracatu, nós trabalhamos a partir da música e das danças turcas".

Mas se a diversidade rítmica não representou problema para os percussionistas do AfroReggae, o grupo teve de adaptar seus métodos para levar em conta outras diferenças culturais.

"Aqui existem leis severas sobre o toque, sobre como tocar o aluno. O professor de balé só pode tocar o aluno de uma certa maneira", explicou Darienzo. "As leis de segurança no trabalho também dificultam o projeto. Não podemos pedir a um jovem que suba em uma escada para mexer na luz, por exemplo."

De volta ao Brasil ainda nesta semana, o AfroReggae retorna a Londres para dois shows no Barbican Hall nos dias 28 e 29 de junho. A banda vai levar as oficinas culturais para outros países e faz shows ainda este ano nos Estados Unidos, China, Índia e Alemanha.


n.r.: Bacana, né? A união faz a força!


fonte:BBC Brasil
imagem: gritosurbanos.blogspot.com

Presídio fashion na capital da moda

Presidiárias lançam grife de moda em Milão


Prisioneiras da penitenciária de San Vittore, em Milão, vão lançar uma grife com suas próprias criações para o mundo da moda. A marca se chamará Alice, nome da cooperativa que já funciona no local há 15 anos e que vem fazendo sucesso com uma linha de camisetas estampadas com gatos listrados de preto e branco.


O projeto de competir com nomes famosos da moda italiana conta com a colaboração da designer Anna Molinari, da Blumarine, e do secretário municipal para Economia e Moda, Tiziano Maiolo.

Outros designers também mostraram apoio cedendo roupas e acessórios de suas coleções primavera/verão para um desfile feito na prisão este mês, usando as presidiárias como modelos, para comemorar o aniversário da cooperativa.


Os vestidos de cetim, saias multicoloridas e casacos de corte inovador, desenhados por estilistas de grifes como Alberta Ferretti e Pollini, foram exibidos em uma passarela montada dentro da penitenciária.

Mas esta não é a primeira vez que as prisioneiras recebem atenção da mídia. Suas criações também já foram usadas por duas estações de TV italianas e em produções teatrais exibidas no Scala de Milão. "As presidiárias que participam da cooperativa são tão dedicadas que muitas vezes viram a noite trabalhando. O trabalho é de fato a chave, é o que dá sentido ao tempo de detenção", disse o diretor da cooperativa, Alessandro Brevi, à agência italiana Ansa.


Segundo Brevi, a iniciativa mudou a vida de centenas de presidiárias e reduziu drasticamente os índices de reincidência criminal.



fonte:BBC Brasil

segunda-feira, 21 de maio de 2007


Se eu quiser falar com Deus


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar



Gilberto Gil
imagem: Antoine de Villiers

China Hoje, Coleção Uli Sigg - RJ

Realismo socialista com toques fashion



A lenta abertura política e a rápida abertura econômica da China vêm fazendo com que nas últimas três décadas, a arte contemporânea chinesa atraia olhares e dólares em todo o mundo. Parte dela estará à mostra no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio - e não será exposta em SP.

"China Hoje - Coleção Uli Sigg" reúne trabalhos de 27 artistas, selecionados pelo curador Alfons Hug naquela que é a maior coleção de arte contemporânea chinesa. O suíço Uli Sigg, 61, foi embaixador de seu país na China entre 1995 e 98, quando começou a formar o acervo, de atuais 1.500 obras.



"A arte chinesa é um espelho interessante da realidade da China de hoje e diferente da visão oficial. É uma arte com alguns toques de ironia e subversão e que, às vezes, bebe na rica fonte da tradição chinesa", afirma Sigg. A corrente irônica costuma ser chamada de "realismo cínico". São artistas que, com sutileza, comentam o realismo socialista, praticamente a arte oficial durante os anos do líder comunista Mao Tse-tung no poder (1949-76), em especial na chamada Revolução Cultural (1966-69).

A tela de Zeng Fanzhi, por exemplo, mostra os olhos esbugalhados e as mãos desproporcionalmente grandes de um homem ao lado de um pequeno cachorro. Já Qi Zhilong pinta uma jovem com roupa militar, batom cor-de-rosa e elástico da mesma cor, unindo as tranças.

"A moldura é a mesma do realismo socialista, mas há um toque fashion que torna o quadro muito interessante", avalia Alfons Hug, alemão radicado no Brasil e que já selecionara obras chinesas para as Bienais de São Paulo de 2002 e 2004. A peça de maior destaque é um grão de areia, posto num pedestal no foyer do CCBB.

Herdeiro da tradição milenar da caligrafia chinesa, Lu Hao conseguiu escrever 125 caracteres no grão, que terá seu tamanho ampliado 5.000 vezes, graças a uma projeção. Os micro-símbolos contam a história de um homem que deixa sua aldeia e sofre na cidade grande.

A mostra ainda tem uma escultura (de Li Zhanyang) em que Buda é tentado por uma mulher, uma instalação (de Liu Wei) que une confessionários católicos e uma liteira chinesa, fotografias, pinturas que parecem fotos de tão realistas que são -como as de Li Dafang, com influência pop- e paisagens. Tudo figurativo.



"Praticamente não existe abstracionismo na China. Eu também me interessei por criar esse contraponto, já que, no Brasil, se você quiser fazer uma exposição contemporânea de paisagens ou mesmo de retratos, vai ter muita dificuldade", afirma Hug.

CHINA - COLEÇÃO ULI SIGG
» Quando:
de ter. a dom.; das 10h às 21h
» Onde: CCBB-RJ
Rua Primeiro de Março, 66, centro

» Quanto: Grátis. Até 5/7
» Informações: tel.: (21) 3808-2020


fonte:Folha de S.Paulo

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Imagens do Soberano - Pinacoteca SP


Pintura retrata Luís 15 usando traje real

"Imagens do Soberano - Acervo do Palácio de Versalhes" apresenta 63 obras - 44 pinturas, 14 obras em papel, uma tapeçaria e quatro esculturas -, que retratam três reis da França, as suas rainhas e os seus herdeiros, entre os séculos 17 e 18. Cinqüenta e nove peças vêm de lá, quatro pertencem ao acervo do Masp.


Esposa de Luís 15, Marie Leszczynska, é retratada em tela real


Trata-se da primeira exposição do museu do Palácio de Versalhes, situado nos arredores de Paris, a ter lugar na América Latina. A curadoria é de Xavier Salmon, conservador-chefe da instituição.


A rainha Maria Antonieta; obras do acervo retratam o poder da monarquia francesa


A mostra gira em torno de Luís 14, Luís 15 e Luís 16. Maria Antonieta, mulher do último, comparece representada em cinco pinturas.


Entre os módulos da mostra está "Luís XIV: imagens de um soberano absoluto"


Pinacoteca do Estado
» Onde:
pça. da Luz, 2, Bom Retiro, região central
» Informações: tel. 3229-9844
» Quando: ter. a dom.: 10h às 18h. Abertura 16/5. Até 5/8
» Quanto: ingr.: R$ 4 (estudantes: R$ 2. Sáb.: grátis). Estac. grátis.
Visitas monitoradas c/ agendamento. A C D I



fonte:Guia da Folha

terça-feira, 15 de maio de 2007

World Press Photo 2006

Mostra exibe fotojornalismo lírico


O impacto da estética do fotojornalismo contemporâneo aliado a histórias que mostram o ser humano no limite da dor, da indignação e, por vezes, da beleza e do prazer, perpassam as 205 imagens que integram a mostra do World Press Photo, que será aberta amanhã no Sesc Pompéia, em São Paulo. Com sede em Amsterdã, o World Press Photo, o mais prestigiado prêmio da área, recebeu a inscrição de 4.460 fotógrafos de 124 países, com 78.083 imagens concorrentes.



No início do ano, o júri escolheu os vencedores em dez categorias. Cada uma dessas categorias se subdivide em duas, premiando tanto uma fotografia isolada quanto um ensaio fotográfico, em geral composto por um conjunto de 12 fotos. Nas últimas edições, o WPP não prevê mais a obrigatoriedade da fotografia ter sido publicada para poder concorrer.



Com a mudança, o fotógrafo brasileiro João Kehl, 24, que trabalha na agência paulista Cia de Foto, pode ver seu ensaio sobre uma academia de boxe para moradores de rua, localizada sob um viaduto no bairro do Bexiga, em São Paulo, arrebatar o primeiro lugar na categoria Esportes em Geral. Trabalhando de forma apurada a luminosidade do local, a inserção da academia na cidade e os pretendentes a pugilistas, Kehl conseguiu captar uma atmosfera de grande lirismo.



De quebra, essa premiação serviu para espelhar a pobreza editorial que ronda a mídia impressa no Brasil, nas quais o espaço destinado à publicidade somado à falta de ousadia impossibilita a publicação de ensaios fotográficos de fôlego. Inédito no Brasil, o ensaio será publicado no próximo número da inglesa "Ei8th Magazine".



O Brasil é representado também nesta edição do World Press pela fotografia do espanhol Daniel Beltrá, da agência Zuma Press, com uma foto realizada para o Greenpeace, na qual o contraste entre a terra árida e a floresta amazônica denuncia o uso irregular do solo para o plantio de soja. Como nas últimas edições, o grande prêmio privilegiou um dos maiores fatos noticiosos do ano passado: o conflito entre Israel e Líbano.



Na imagem realizada pelo norte-americano Spencer Platt, um grupo de pessoas retorna de carro para casa, no sul do Líbano, tendo ao fundo as ruínas dos ataques. Realizada no dia do cessar-fogo entre Israel e o Hizbollah, a imagem valeu a Platt a premiação de 10 mil.



Mas nem só de tragédias ou questões sociais é composto o mosaico de imagens premiadas. É possível ver uma ótima série de fotos de dança de rua de autoria de Denis Darzacq. Em esporte, o destaque fica para a famosa cabeçada do francês Zinedine Zidane no italiano Marco Materazzi, na final da Copa do Mundo do ano passado, de autoria do fotógrafo holandês Peter Schols.




fonte:Folha de S.Paulo

Amor


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.


Clarice Lispector in Laços de Família

n.r.: peço desculpas aos leitores deste blog, mas devido a problemas com o PC, vejo-me muitas vezes impedida de postar e principalmente em visitar todos os blogs que gosto.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Clarice Lispector no Museu da Língua - S.Paulo

Museu da Língua expõe originais e cartas de Clarice


Em uma de suas crônicas compiladas no livro "A Descoberta do Mundo", a jornalista e escritora Clarice Lispector afirmava: "Amo a língua portuguesa [...]. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida". Passadas quase três décadas de sua morte, o amor de Clarice pelo idioma não poderia ter melhor abrigo do que o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que abre na próxima terça-feira uma exposição em sua homenagem.



A mostra, que também marca os 30 anos de lançamento de seu livro mais popular, "A Hora da Estrela", vai ocupar o primeiro andar do museu, onde ficam as exposições temporárias, como a dedicada a "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, que ficou em cartaz durante nove meses, até o dia 28 de fevereiro. Manuscritos e originais datilografados inéditos, assim como a também inédita correspondência com escritores como Rubem Braga, João Cabral de Mello Neto, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Erico Veríssimo e Lúcio Cardoso, ajudam a compor o retrato da autora proposto pelos curadores Ferreira Gullar, poeta, crítico e colunista da Folha, e Júlia Peregrino, além dos cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara.

A pesquisa e montagem da exposição duraram cerca de três meses e meio. Já na entrada, o público será apresentado a Clarice através de telas de filó, de 6 m x 4,2 m, com imagens da autora em quatro diferentes épocas de sua vida. Por meio das telas, as pessoas poderão ler trechos selecionados de sua obra que se referem à "filosofia clariceana", suas perspectivas sobre vida e morte, natureza, tempo, a língua portuguesa, a escrita etc."Foi uma grande responsabilidade fazer uma síntese da obra de Clarice para o público. Seu universo é complexo e ao mesmo tempo generoso, o que tornou um tanto difícil fazer a seleção de frases e trechos", explica Peregrino. "A idéia, de qualquer jeito, não era esgotar o espectador, e sim deixá-lo instigado a, depois que sair da exposição, conhecer mais a fundo a vida e obra de Clarice."



Clarice Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia, e chegou ao Brasil aos dois meses de idade, naturalizando-se brasileira em 1943. Foi criada em Maceió e Recife, e aos 12 foi para o Rio de Janeiro, onde se formou em direito, trabalhou como jornalista e iniciou sua carreira literária. Lançou seu primeiro livro, "Perto do Coração Selvagem", com apenas 23 anos. Escreveu 26 livros e foi traduzida em 15 línguas.

Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, Clarice viveu muitos anos no exterior e teve dois filhos. Foi do acervo de um deles, Paulo Gurgel Valente, que Peregrino extraiu boa parte do material inédito da mostra. Como uma caderneta com anotações para o seu segundo romance, "O Lustre", as carteiras de identidade da autora e cartas curiosas, como a que ela escreveu para o presidente Getúlio Vargas pedindo a aceleração no seu processo de naturalização.

Mesmo pedido feito por André Carrazzoni, diretor do jornal "A Noite", onde ela trabalhava, em carta endereçada a Oswaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores. No texto, Carrazzoni defendia que Clarice, além de jornalista brilhante, era "filha do nosso clima sentimental e moral". Outra curiosidade são os originais de "Água-Viva" (1973), também inéditos, segundo Peregrino, e que trazem uma lista de recomendações para a própria autora, desde as mais objetivas, como "copiar páginas soltas" e "ler cortando o que não presta", à mais poética "abolir a crítica que seca tudo".

Boa parte do material exposto no Museu da Língua será reunida no catálogo da mostra, que será vendido a R$ 20. O volume trará ainda textos de Ferreira Gullar, Benedito Nunes e Nélida Piñon, uma cronologia e reprodução de documentos, originais e cartas. Da Estação da Luz, onde fica em cartaz até o dia 2 de setembro, a exposição parte para o Centro Cultural dos Correios, no Rio, onde Clarice morreu, em dezembro de 1977, apenas um dia antes do seu aniversário.


fonte:Folha de S.Paulo
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