terça-feira, 16 de outubro de 2007

Raízes lusitanas no Rio de Janeiro

Exposição que reconta história de Portugal dá início às comemorações dos 200 anos da vinda da família real


Romanos, cristãos, mulçumanos e judeus se sucederam, misturaram-se, conviveram harmoniosamente e também lutaram na Península Ibérica, contribuindo para o que é, hoje, o povo e a cultura de Portugal. Se por aqu só se costuma conhecer mais a fundo o país a partir dos Descobrimentos, quem foram os portugueses que aqui chegaram? Uma gente repleta, ela mesma, de origens, que se mostram a nós em "Lusa - A matriz portuguesa", a maior exposição do ano no Centro Cultural Banco do Brasil(CCBB), que já foi aberta ao público na passada sexta-feira, dia 12. A mostra inicia oficialmente as comemorações da chegada da família real portuguesa ao país, completados em março de 2008.

- O maior patrimônio que permanece é a consciência de que a cultura portuguesa, com uma profunda marcca clássica, evoloiu num diálogo constante com diferentes culturas pelas quais se deixou "contaminar" - afirma a arqueóloga Conceição Lopes.



Responsável pelas peças romanas, Conceição é uma entre nove pesquisadores portugueses que fazem a curadoria de cada um dos períodos históricos abordados na mostra, que ocupara´todo o CCBB. São 147 obras, 39 delas tesouros nacionais, que nunca haviam saído da Europa, como o guerreiro celta em granito, do século I a.C., pesando uma tonelada. Mas, mesmo sem a classificação "tesouro", há peças preciosas, como o bocal de poço islâmico - que, com uma estrela de Davi, mostra uma convivência pacífica entre as religiões.

- A tradição mediterrânea se assenta no intercâmbio comercial. As conquistas militares foram, nesse ambiente, uma normalidade - afirma o historiador e arqueólogo Cláudio Torres, responsável pelo período medieval islâmico. - O mercador alimenta e desenvolve contos com o diferente, simplesmente porque precisa ver nele um cliente, e não um inimigo. A civilização mediterrânea marcou, deste modo, uma forma de ser completamente diferente dos fenômenos de colonização posteriores.



Torres lembra que as cidades portuárias do Mediterrâneo, incluindo as da Península Ibérica, continham bairros próprios cristãos, judeus ou mulçumanos, que, mesmo hostis, mantinham a convivência, enquanto no norte europeu, onde dominava o pensamento cristão feudal, os diferentes eram expulsos ou massacrados. Sem a presença de grandes castelos ou monumentos árabes na região que depois formou Portugal, Torres reuniu para a exposição peças de arqueologia, muitas de cerâmica, sobretudo de Mértola, que, segundo ele, é hoje o mais importante centro de investigação da civilização islâmica de Portugal:
- Não temos Córdoba, Granada ou Sevilha, que durante a islamização foram importantes capitais. Mas, curiosamente, as influências na língua, na arquitetura, na vida cotidiana, na gastronomia, são consideráveis.



A língua que forma a pátria

Uma imensa cama com um mosquiteiro até o teto ocupa toda a rotunda do CCBB, apresentando ao visitante a exposição "Lusa - A matriz portuguesa". É um convite a deitar e, com um ouvido no colchão, escutar palavras de diversos dialetos, regionais e sociais, do Portugal contemporâneo. Não por acaso, "cama" é uma das palavras mais antigas do português, anterior aos romanos e, portanto, sobrevivente ao latim.

Esse é apenas um dos aspectos cenográficos da mostra, que tem ainda holografias dos curadores falando para os espectadores, trilha sonora nas salas e projeção de paisagens e arquitetura de Portugal em vídeos. A língua portuguesa não está só na cama, mas numa sala que a vincula ao comércio: são prateleiras com reproduções de manuscritos, sobretudo medievais, e potes contendo especiarias e produtos como argila, pólvora e pó de ferro, que eram comercializados e precisavam ser nomeados.

- A peça central é o manuscrito medieval português do Livro das Aves, que pertence à Biblioteca da Universidade de Brasília - conta o lingüista Ivo Castro, curador da sala. - Também são expostos produtos, geralmente da esfera alimentar, originários de Portugal ou trazidos para o Brasil pelos portugueses. Os nomes desses produtos pertencem a línguas de sociedades com as quais Portugal teve relações de comércio e fazem hoje parte, por isso, do patrimônio lingüístico do português brasileiro.


n.r.: O conhecimento que o Brasil tem de Portugal até o momento é bastante restrito. Sabe-se e fala-se da época do Descobrimento, dos negros de África que foram trazidos para o Brasil como mão de obra escrava e da aversão da rainha Carlota Joaquina, mulher de D.João VI e filha de Carlos IV de Espanha pelo calor desta terra brasilis. Finalmente chega ao Brasil uma exposição rica em cultura que trata das raízes lusitanas e da história genética do povo português, de onde vieram a virtude de sua força, bravura e valentia que o definem.


fonte:jornal O Globo, texto de Suzana Velasco.

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